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  • Ilana Majerowicz

Quais perguntas escolhemos viver?



Há 5 anos eu iniciei uma jornada na pesquisa sobre comunidades, ou melhor, formas de se viver, trabalhar e organizar uma sociedade mais conectada com a vida e com a natureza.


Quando digo natureza, falo sobre o sistema natural que rege o planeta e o ser humano, não necessariamente se enfiar no meio do mato! Falo isso, pois só essas dualidades: cidade X campo, homem X natureza, já é fruto dessa desconexão, pois tudo é parte desse grande sistema vivo*. É até estranho falar de desconexão, pois é impossível qualquer coisa no mundo estar desconectado ao resto do planeta, por acaso você é capaz de não respirar o ar que todos respiram? Pois é, mas é assim que nos percebemos… coisas separadas de coisas, independentes.


Em algum momento lá atrás essa grande ficha caiu pra mim: o modo como percebo a vida, o modo como me relaciono, o modo como lido com o trabalho, como organizamos as instituições, como consumimos, de repente se mostrou tão vazio… parecia que nada tava sendo criado, tudo já estava dado, as respostas estavam prontas … mas era tudo tão contraditório que tava fácil desconfiar que não era só um problema meu, não era só eu que não via essas respostas como "certas" para mim.


De lá para cá conheci metodologias baseadas em sistemas vivos, conheci a permacultura, agroecologia, ecovilas, dragon dreaming, danças, terapias, filosofias e até bases científicas que falam sobre essa reconexão, que seria uma espécie de alinhamento da nossa visão de mundo com os ciclos e ordens naturais. Parece que a humanidade foi se empolgando tanto com a revolução industrial e com as máquinas que estava criando para servi-la, que em algum momento a coisa se inverteu, começamos a estar à serviço dessas máquinas e ser treinado para ser peça de engrenagem. Então, se antes nos guiávamos pelo céu, pelas estações, pelos animais, hoje nos guiamos por meio de aparatos tecnológicos, como o relógio, e não há problema algum nisso se não nos tornamos reféns de nossas próprias criações (como já nos tornamos…).


Fui percebendo que o vazio que sentia (e ainda sinto as vezes) é fruto dessa desconexão, do desconhecimento que eu tinha sobre quem ou o que eu sou. Afinal, se passei a minha vida me considerando um ser separado que precisa se adequar a um sistema anti-vida, um ser que precisa vencer outros dentro desse sistema, que precisa ser melhor, superior, que precisa se proteger, acumular, ter para demonstrar status, que precisa fingir que não sente, que reprime emoções, que fala e faz coisas diferentes da sua vontade real, então esse ser não tem como se conhecer e se realizar. Toda a sua energia está voltada a se tornar algo que não é, um grande esforço insustentável, é remar contra a maré!


É aí que entra a minha pesquisa sobre comunidades e metodologias baseadas em sistemas vivos, buscando estar em um campo onde eu pudesse olhar para essas perguntas: Como seria viver em um sistema humano que estivesse em prol da vida, conectado as ordens naturais, onde o ser humano não precisasse gastar toda a sua energia servindo como máquinas e lutando para ser o que não é? Como seria viver e trabalhar com pessoas que estão focadas em libertar a si mesmas dessas ideias distorcidas de si e da realidade para empregar seu tempo, seu corpo, sua inteligência e sua potência de vida naquilo que é natural em ti, que expressa sua essência, que sustenta a vida, no que cuida uns dos outros, no que alimenta de verdade o coração do ser humano?


Que sociedade se criaria a partir disso? Quais problemas seriamos capaz de solucionar? Com qual estado interno viveria o ser humano? Com qual estado de consciência viveríamos? Será que conheceríamos o nosso real potencial criativo?


É com essas perguntas que vivo, que me movo, que trabalho, que crio e que me levam a um constante reconhecimento de mim mesma todos os dias. Escolher as perguntas que quero viver, para viver diferentes respostas e me reconectar ao fluxo natural e criador da vida.


*Ver Teoria de Gaia, James Lovelock

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